Mulher. Mãe. Bonita. Atualizada. Feliz. Competente. Angustiada. Confusa. Careta. Carente. É muita coisa que dá pra ser. É muita coisa que sou. É muito pra administrar. É grande pra desistir. Ninguém disse que seria fácil, mas a dificuldade tão pouco foi esboçada.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. Ser indivíduo dá essa sensação, de falta! Nossa mãe dá conta dessa falta até a gente perceber outras coisas que nos agradam. O coleguinha, o sanduíche o filme, a Xuxa, o menino, a menina (ou os dois). E aí parece que nada em mim serve: as ideias, o cabelo, as roupas. A mão é grande demais. O cabelo é curto demais. O nariz é feio demais. E isso tudo sempre pro outro. Pra agradar o outro. Pra trazer o outro pra si. Pra se preencher.
Mas o outro é o outro. E ler mentes é inviável. E agradar sempre é improvável. E a falta não acaba. A posse parece poder fazer sentido, o ciúme aparece imenso, e inviabiliza a racionalidade. A falta fica de mãos dadas com o medo de perder o outro. Insanidade é o próximo passo.
De repente, pra ser feliz você precisa fazer um outro ou uma outra feliz. E aí é a beleza do outro que vira questão. É a felicidade do outro. É a angústia do outro. É a identidade do outro. E você sumiu. E o vazio aumenta. Vira o dobro. E você finalmente consegue começar a responsabilizar outra pessoa pela sua felicidade, tristeza, frustração, beleza. E já não é mais você. O que era muito pra ser administrado, já não mais te pertence, está nas mãos de outro. E não deixa de doer, mas facilita. Anula suas próprias mazelas.
Mas é emocionante retomar. Você chora e sofre e grita mas entende que só tem você. Que sempre foi só você. Você admite com plena consciência que é muito pra administrar e que é de bom tom que você dê conta. E que só tem você. E que é grande demais pra desistir.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. E tenho, mas são todas minhas
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