quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Espelho


“Ela é tão educada que nem parece preta!”. Foi esse o elogio que me fizeram. A pretensa família branca que me via como mais novo membro. Todos mestiços, mas que politicamente escolheram o lado branco pra se identificar: o lado forte, vencedor, opressor, colonizador.  
Continuei meu relacionamento pois, no fim das contas, me relaciono com gente e amava meu então namorado. E comecei a pensar: pareço negra, oras. Eu leio por causa da minha avó, uma negra linda de cabelos branquinhos e crespos, que sempre leu pra mim e comigo; que me ensinou a ler e a língua do pê; que tinha livros na casa humilde em que a gente morava (eu, ela e meus pais).
Sempre que penso nas minhas origens, penso nela. Filha única de um marinheiro, que morreu na revolta da chibata, e uma dona de casa que morreu logo em seguida, deixando a então menina de 6 anos órfã. Recuperar essa história é difícil. Não tem fotos, não tem registro escrito e quase não tem memória na cabeça da menina de Taubaté, sozinha desde a infância. Como o pai era militar, ela foi criada no Rio de Janeiro por uma família que todas vocês conhecem. Foi criada na casa do Benjamin Constant, naquele castelinho bonitinho em Santa Teresa. Viveu lá até os 18 anos. Era a “criança trazida pra brincar com os filhos” do cara. Ouvi essa história sempre contada com muito orgulho. Mas me orgulho mesmo é por ela ter percebido que ali não era lugar pra ela. Que cada coisa daquela casa não era dela. Era uma boneca, quase um móvel.
E é com ela que pareço. Com meu avô, que veio do vale do Paraíba, provavelmente filho direto de ex-escravos, nascido em 1910. E cem anos me separam desse cara, que só me deixou o que a memória da minha mãe consegue contar. Sou fruto da diáspora como qualquer preto brasileiro, dessa separação de pessoas que existe desde que a escravidão é uma realidade. Mas sou fruto também da necessidade de reencontrar a família, de buscar parentes, de reaver laços. A pobreza e qualquer outra adversidade que separa, não é tão forte quanto esse amor que promove o querer estar junto.
Cresci tendo essa família pequenininha como referência. Pareço com meu pai preto, com minha mãe preta e com minha avó... sou inteligente e meu espelho (por mais incrível que pareça) sempre foi preto. Sou casada com um cara que teve que entender que é preto, e é tão inteligente que percebeu que negar isso é impossível: percebeu que enaltecer somente o fato de sermos humanos é um passo que ainda está bem longe de ser possível. E tenho um filho que indubitavelmente é preto e que nunca vai ter duvida disso.

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