“Ela é tão educada que nem parece
preta!”. Foi esse o elogio que me fizeram. A pretensa família branca que me via
como mais novo membro. Todos mestiços, mas que politicamente escolheram o lado
branco pra se identificar: o lado forte, vencedor, opressor, colonizador.
Continuei meu relacionamento
pois, no fim das contas, me relaciono com gente e amava meu então namorado. E
comecei a pensar: pareço negra, oras. Eu leio por causa da minha avó, uma negra
linda de cabelos branquinhos e crespos, que sempre leu pra mim e comigo; que me
ensinou a ler e a língua do pê; que tinha livros na casa humilde em que a gente
morava (eu, ela e meus pais).
Sempre que penso nas minhas
origens, penso nela. Filha única de um marinheiro, que morreu na revolta da
chibata, e uma dona de casa que morreu logo em seguida, deixando a então menina
de 6 anos órfã. Recuperar essa história é difícil. Não tem fotos, não tem
registro escrito e quase não tem memória na cabeça da menina de Taubaté,
sozinha desde a infância. Como o pai era militar, ela foi criada no Rio de
Janeiro por uma família que todas vocês conhecem. Foi criada na casa do
Benjamin Constant, naquele castelinho bonitinho em Santa Teresa. Viveu lá até
os 18 anos. Era a “criança trazida pra brincar com os filhos” do cara. Ouvi
essa história sempre contada com muito orgulho. Mas me orgulho mesmo é por ela ter percebido que ali não era lugar pra ela. Que cada coisa daquela
casa não era dela. Era uma boneca, quase um móvel.
E é com ela que pareço. Com meu
avô, que veio do vale do Paraíba, provavelmente filho direto de ex-escravos,
nascido em 1910. E cem anos me separam desse cara, que só me deixou o que a
memória da minha mãe consegue contar. Sou fruto da diáspora como qualquer preto
brasileiro, dessa separação de pessoas que existe desde que a escravidão é uma
realidade. Mas sou fruto também da necessidade de reencontrar a família, de
buscar parentes, de reaver laços. A pobreza e qualquer outra adversidade que
separa, não é tão forte quanto esse amor que promove o querer estar junto.
Cresci tendo essa família
pequenininha como referência. Pareço com meu pai preto, com minha mãe preta e
com minha avó... sou inteligente e meu espelho (por mais incrível que pareça)
sempre foi preto. Sou casada com um cara que teve que entender que é preto, e é
tão inteligente que percebeu que negar isso é impossível: percebeu que
enaltecer somente o fato de sermos humanos é um passo que ainda está bem longe
de ser possível. E tenho um filho que indubitavelmente é preto e que nunca vai
ter duvida disso.
Pretos nós!
ResponderExcluirFeliz, orgulhoso e lisonjeado!