segunda-feira, 27 de maio de 2013

(Re) Ter

Sorrisos. Lugares. Músicas. Sensações. Shows. Sentimentos. Pessoas. Alegrias. Lágrimas.
Um clique parece ter o poder de imortalizar o efêmero, de prender o instante e guardar pra sempre (estagnando) uma explosão de alegria. Capturar a imagem nos dá ilusoriamente a certeza de ter o momento lembrado, cuidado, venerado, continuado.
Acessamos lembranças do que não vimos efetivamente, do que já começou enquadrado, esquecido. Ver o mundo pela tela de um celular inteligente tem se tornado cada vez mais comum. E também interagir virtualmente. O show passa, e as luzes e brilho, a voz estridente ou rouca, a música da sua vida, tudo isso é encoberto pelo grito da fã que abafa a sua gravação; pelas mãos e outros celulares na sua frente; pela imagem sem foco de uma câmera mal orientada. E a imagem real te foge: a gravação ruim é tudo o que conseguirá ver depois que o show acabar, e pior, é tudo o que estará na sua memória. 
A voz, o artista e o sorriso do percursionista que se diverte tocando se perdem na sua tentativa de reter uma imagem, na tentativa de ter pra sempre o registro de uma felicidade!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Nunca foi o 13 de maio

Difícil saber desde quando a liberdade é conquistada diariamente. No calçar um sapato, no desrespeitar uma regra imposta, no corte de cabelo que se mantém, que muda, que se impõe... na cocada da esquina, no poder da quitandeira, no turbante de Rainha.
Benguelas, Cabindas, Minas, centenas de etnias vindas, inventadas, forjadas num trajeto sempre dolorido. Pessoas com irmandades as vezes forçadas, laços construídos quase sempre pela dor, e pela cura e pelo amor. Laços construídos quase sempre na reconstrução dos lares, das famílias, dos irmãos, das línguas, dos credos. Laços apertados, atados, refeitos sempre num abraço, no reflexo, no sorriso do outro. 
Difícil saber desde quando a liberdade é conquistada diariamente. Na resistência. No levantar de cabeças. No continuar caminhando. Nossas caras são parecidas e pouco importa se mais ou menos pretas. De fora, ninguém nota. A diferença que fazemos aqui dentro não é nossa. E quem me dera isso fosse só metáfora. 
E comemorar essa liberdade tem que ser todos os dias. 
E conquistar essa liberdade tem que ser todos os dias. 
E se orgulhar dessa liberdade tem que ser todos os dias. 
E agradecer essa liberdade tem que ser todos os dias. 
Agradecer a você mesmo que tem coragem de sair com sua cara preta na rua. Agradecer aos seus, que são colo, carinho e casa pra você. Ao seu irmão que não é visto mas continua gritando. Agradecer aos seus ancestrais que saíram sempre com as suas caras pretas nas ruas. Esperando e revidando tapas; Esperando e retribuindo carinhos; Esperando reflexos. Sendo reflexos.   

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Espelho


“Ela é tão educada que nem parece preta!”. Foi esse o elogio que me fizeram. A pretensa família branca que me via como mais novo membro. Todos mestiços, mas que politicamente escolheram o lado branco pra se identificar: o lado forte, vencedor, opressor, colonizador.  
Continuei meu relacionamento pois, no fim das contas, me relaciono com gente e amava meu então namorado. E comecei a pensar: pareço negra, oras. Eu leio por causa da minha avó, uma negra linda de cabelos branquinhos e crespos, que sempre leu pra mim e comigo; que me ensinou a ler e a língua do pê; que tinha livros na casa humilde em que a gente morava (eu, ela e meus pais).
Sempre que penso nas minhas origens, penso nela. Filha única de um marinheiro, que morreu na revolta da chibata, e uma dona de casa que morreu logo em seguida, deixando a então menina de 6 anos órfã. Recuperar essa história é difícil. Não tem fotos, não tem registro escrito e quase não tem memória na cabeça da menina de Taubaté, sozinha desde a infância. Como o pai era militar, ela foi criada no Rio de Janeiro por uma família que todas vocês conhecem. Foi criada na casa do Benjamin Constant, naquele castelinho bonitinho em Santa Teresa. Viveu lá até os 18 anos. Era a “criança trazida pra brincar com os filhos” do cara. Ouvi essa história sempre contada com muito orgulho. Mas me orgulho mesmo é por ela ter percebido que ali não era lugar pra ela. Que cada coisa daquela casa não era dela. Era uma boneca, quase um móvel.
E é com ela que pareço. Com meu avô, que veio do vale do Paraíba, provavelmente filho direto de ex-escravos, nascido em 1910. E cem anos me separam desse cara, que só me deixou o que a memória da minha mãe consegue contar. Sou fruto da diáspora como qualquer preto brasileiro, dessa separação de pessoas que existe desde que a escravidão é uma realidade. Mas sou fruto também da necessidade de reencontrar a família, de buscar parentes, de reaver laços. A pobreza e qualquer outra adversidade que separa, não é tão forte quanto esse amor que promove o querer estar junto.
Cresci tendo essa família pequenininha como referência. Pareço com meu pai preto, com minha mãe preta e com minha avó... sou inteligente e meu espelho (por mais incrível que pareça) sempre foi preto. Sou casada com um cara que teve que entender que é preto, e é tão inteligente que percebeu que negar isso é impossível: percebeu que enaltecer somente o fato de sermos humanos é um passo que ainda está bem longe de ser possível. E tenho um filho que indubitavelmente é preto e que nunca vai ter duvida disso.

sábado, 24 de novembro de 2012

Lacunas

Mulher. Mãe. Bonita. Atualizada. Feliz. Competente. Angustiada. Confusa. Careta. Carente. É muita coisa que dá pra ser. É muita coisa que sou. É muito pra administrar. É grande pra desistir. Ninguém disse que seria fácil, mas a dificuldade tão pouco foi esboçada.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. Ser indivíduo dá essa sensação, de falta! Nossa mãe dá conta dessa falta até a gente perceber outras coisas que nos agradam. O coleguinha, o sanduíche  o filme, a Xuxa, o menino, a menina (ou os dois). E aí parece que nada em mim serve: as ideias, o cabelo, as roupas. A mão é grande demais. O cabelo é curto demais. O nariz é feio demais. E isso tudo sempre pro outro. Pra agradar o outro. Pra trazer o outro pra si. Pra se preencher.
Mas o outro é o outro. E ler mentes é inviável. E agradar sempre é improvável. E a falta não acaba. A posse parece poder fazer sentido, o ciúme aparece imenso, e inviabiliza a racionalidade. A falta fica de mãos dadas com o medo de perder o outro. Insanidade é o próximo passo. 
De repente, pra ser feliz você precisa fazer um outro ou uma outra feliz. E aí é a beleza do outro que vira questão. É a felicidade do outro. É a angústia do outro. É a identidade do outro. E você sumiu. E o vazio aumenta. Vira o dobro. E você finalmente consegue começar a responsabilizar outra pessoa pela sua felicidade, tristeza, frustração, beleza. E já não é mais você. O que era muito pra ser administrado, já não mais te pertence, está nas mãos de outro. E não deixa de doer, mas facilita. Anula suas próprias mazelas. 
Mas é emocionante retomar. Você chora e sofre e grita mas entende que só tem você. Que sempre foi só você. Você admite com plena consciência que é muito pra administrar e que é de bom tom que você dê conta. E que só tem você. E que é grande demais pra desistir.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. E tenho, mas são todas minhas

sábado, 17 de novembro de 2012

Versão Beta


Explode o dia,
renovo(ô).
Conspira o leito,
redoma.
Encoraja a razão,
recresço.
Relutam as pernas,
reclamam.
Acordo para a vida,
ressuscito.
De pé finalmente!
Ressalto.
Seco as lágrimas,
retardo.
Conto as horas,
revivo.
Coleciono tarefas,
repouso.
Tempo esgotado... revanche.

(Dezembro de 2004)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O caminho do só (ou Da tristeza do plágio)

Só acho que quero ouvir palavras doces.
Ligo! Exito, mas ligo.
Acho só, que quero ouvir palavras doces.
É a suavidade e a proibição que procuro.
Acho que só quero ouvir palavras doces.
Só a voz, mesmo que arrepie, não traz a culpa.
Acho que quero só ouvir palavras doces.
O pulsar do coração faz das palavras adereço.
Acho que quero ouvir só palavras doces.
Mas nada é dito. Não de verdade.
Acho que quero ouvir palavras só doces.
Basta ouvir sua respiração.
Acho que quero ouvir palavras doces. Só.
Só o "Eu te amo" está fora de cogitação.

Plagiado: Arquiletratura - O Caminho do Só

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mundo Colorido

O Início

(06 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

As luzes se apagam, os músculos relaxam e pronto, os fantasmas estão livres. Vêm de todos os lugares, não dão trégua mas sustos, muitos, todos... sempre foi assim. Cresceu e, com seus pézinhos número vinte e oito, não corre mais para a cama dos pais. Desafia seus monstros e medos com um baita sorriso.
A noite não é nada tranquila, se debate, revolve os cobertores floridos e pequenos, que derretem o seu corpinho miúdo e assustado; pode-se dizer até divertida, gosta dos sustos, das vozes e da sensação de falta de estômago. Acordava suada e sufocando uma gargalhada, aprendeu a gostar dos pesadelos de tão constantes, sobretudo porque nestes sonhos escolhe de tudo, até mesmo que cenários farão parte de sua longa jornada noturna.

O Meio
(18 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

Seus olhos brilham tanto quanto o sorriso diante da certeza de que as noites vêm sempre, sabe que eles estarão lá. Acho que foi por isso que deixou de temer pesadelos... os monstros existem por ela e com ela, não são nada sem suas lágrimas, fugas e gritos apavorados, e gosta de sentir, ama ter vontades, mas, principalmente, tem verdadeira adoração pelo som da sua voz que pode ser ouvida por todo aquele mundo pavoroso.
O anoitecer tornou-se o acontecimento mais fascinante de seus longos dias, experimenta prazer de sentir o sono chegando... nunca forçou nem antecipou a hora de ir dormir, espera pacientemente o incontornável fechar de olhos, irresistível e por si só, delicioso de tão demorado. Sempre a mesma coisa, todas as noites, o sono vinha e a embalava onde quer que estivesse, alguém a levava para a cama, acarinhando por um breve momento o seu corpo... poderia mesmo até se sentir amada mas rapidamente o frio na espinha e o bater da porta a levavam volta ao seu tão esperado momento.



O Pesadelo... e fim
(18 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

Descartou a ponte. Contornou a imensa poça. Colheu flores. Perdeu o estômago. Caiu do penhasco. De pé. Criou asas nos calcanhares. Ele está atrás dela. O cheiro é ruim. Jogou fora os óculos. Andou até as ruas do centro. Escuras. Tinha uma espada. Tentou aprender a usar as asas dos pés. Caiu. Perdeu mais uma vez o estômago. Deixou sua marca em uma das calçadas. Pequena. As ruas eram sujas. Estava com medo. Tinha uma bolsa cheia de morangos poderosos. Ele está atrás dela. Sua respiração é forte. Estava com sede. Chovia bastante. O céu não estava azul. Era verde escuro. Tinha uma boneca de palha falante. Sem um olho. Ele estava atrás dela, seu cheiro era ruim e deslizava pelo chão. O coraçãozinho dela estava disparado, a boneca de palha falava e as asas dos pés não funcionavam. Ele estava atrás dela com sua enorme boca. Ela corria e quis se esconder da chuva e dele e da boneca falante. O guarda-chuva era canibal. Roxo. Ouviu as risadas vindas do fundo da poça. Deixou que sua espada caísse. Ele estava atras dela. Não parou para pegar a espada. Queria seus óculos de volta, precisava ver o caminho que não era o da ponte e fugir da boneca que virou uma fera de três cabeças e um pescoço. Conseguiu bater as asas dos pés e voou para a ponte em chamas. Tinha um balanço. Era um portal. Dentro um picadeiro de circo. Viu elefantes voadores. A boneca. Gritou as palavras mágicas e atirou os morangos poderosos na boneca que agora era uma fera de três cabeças e um pescoço. Explodiu a fera em milhões de confetes. Ele ainda estava atras dela. Parou de correr, voar, respirar. Era sonho. Usou os morangos. Tudo ficou rosa com pintas verde-limão. Era hora de ir para a escola. Ouviu uma voz chamando por seu nome, sabia que era hora de ir para a escola. Seu mundo já estava colorido. Ele estava atras dela. Talvez quisesse brincar. Era hora de ir para escola. Ele queria brincar. Estava cada vez mais colorido. Estava tão bonito seu mundo colorido. Gostava dele. Não foi a escola. Talvez não o encontrasse mais. Não quer nunca mais ir a escola. Gosta de seu mundo colorido.