sábado, 24 de novembro de 2012

Lacunas

Mulher. Mãe. Bonita. Atualizada. Feliz. Competente. Angustiada. Confusa. Careta. Carente. É muita coisa que dá pra ser. É muita coisa que sou. É muito pra administrar. É grande pra desistir. Ninguém disse que seria fácil, mas a dificuldade tão pouco foi esboçada.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. Ser indivíduo dá essa sensação, de falta! Nossa mãe dá conta dessa falta até a gente perceber outras coisas que nos agradam. O coleguinha, o sanduíche  o filme, a Xuxa, o menino, a menina (ou os dois). E aí parece que nada em mim serve: as ideias, o cabelo, as roupas. A mão é grande demais. O cabelo é curto demais. O nariz é feio demais. E isso tudo sempre pro outro. Pra agradar o outro. Pra trazer o outro pra si. Pra se preencher.
Mas o outro é o outro. E ler mentes é inviável. E agradar sempre é improvável. E a falta não acaba. A posse parece poder fazer sentido, o ciúme aparece imenso, e inviabiliza a racionalidade. A falta fica de mãos dadas com o medo de perder o outro. Insanidade é o próximo passo. 
De repente, pra ser feliz você precisa fazer um outro ou uma outra feliz. E aí é a beleza do outro que vira questão. É a felicidade do outro. É a angústia do outro. É a identidade do outro. E você sumiu. E o vazio aumenta. Vira o dobro. E você finalmente consegue começar a responsabilizar outra pessoa pela sua felicidade, tristeza, frustração, beleza. E já não é mais você. O que era muito pra ser administrado, já não mais te pertence, está nas mãos de outro. E não deixa de doer, mas facilita. Anula suas próprias mazelas. 
Mas é emocionante retomar. Você chora e sofre e grita mas entende que só tem você. Que sempre foi só você. Você admite com plena consciência que é muito pra administrar e que é de bom tom que você dê conta. E que só tem você. E que é grande demais pra desistir.
Eu comecei achando que tinha que preencher faltas. E tenho, mas são todas minhas

sábado, 17 de novembro de 2012

Versão Beta


Explode o dia,
renovo(ô).
Conspira o leito,
redoma.
Encoraja a razão,
recresço.
Relutam as pernas,
reclamam.
Acordo para a vida,
ressuscito.
De pé finalmente!
Ressalto.
Seco as lágrimas,
retardo.
Conto as horas,
revivo.
Coleciono tarefas,
repouso.
Tempo esgotado... revanche.

(Dezembro de 2004)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O caminho do só (ou Da tristeza do plágio)

Só acho que quero ouvir palavras doces.
Ligo! Exito, mas ligo.
Acho só, que quero ouvir palavras doces.
É a suavidade e a proibição que procuro.
Acho que só quero ouvir palavras doces.
Só a voz, mesmo que arrepie, não traz a culpa.
Acho que quero só ouvir palavras doces.
O pulsar do coração faz das palavras adereço.
Acho que quero ouvir só palavras doces.
Mas nada é dito. Não de verdade.
Acho que quero ouvir palavras só doces.
Basta ouvir sua respiração.
Acho que quero ouvir palavras doces. Só.
Só o "Eu te amo" está fora de cogitação.

Plagiado: Arquiletratura - O Caminho do Só

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mundo Colorido

O Início

(06 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

As luzes se apagam, os músculos relaxam e pronto, os fantasmas estão livres. Vêm de todos os lugares, não dão trégua mas sustos, muitos, todos... sempre foi assim. Cresceu e, com seus pézinhos número vinte e oito, não corre mais para a cama dos pais. Desafia seus monstros e medos com um baita sorriso.
A noite não é nada tranquila, se debate, revolve os cobertores floridos e pequenos, que derretem o seu corpinho miúdo e assustado; pode-se dizer até divertida, gosta dos sustos, das vozes e da sensação de falta de estômago. Acordava suada e sufocando uma gargalhada, aprendeu a gostar dos pesadelos de tão constantes, sobretudo porque nestes sonhos escolhe de tudo, até mesmo que cenários farão parte de sua longa jornada noturna.

O Meio
(18 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

Seus olhos brilham tanto quanto o sorriso diante da certeza de que as noites vêm sempre, sabe que eles estarão lá. Acho que foi por isso que deixou de temer pesadelos... os monstros existem por ela e com ela, não são nada sem suas lágrimas, fugas e gritos apavorados, e gosta de sentir, ama ter vontades, mas, principalmente, tem verdadeira adoração pelo som da sua voz que pode ser ouvida por todo aquele mundo pavoroso.
O anoitecer tornou-se o acontecimento mais fascinante de seus longos dias, experimenta prazer de sentir o sono chegando... nunca forçou nem antecipou a hora de ir dormir, espera pacientemente o incontornável fechar de olhos, irresistível e por si só, delicioso de tão demorado. Sempre a mesma coisa, todas as noites, o sono vinha e a embalava onde quer que estivesse, alguém a levava para a cama, acarinhando por um breve momento o seu corpo... poderia mesmo até se sentir amada mas rapidamente o frio na espinha e o bater da porta a levavam volta ao seu tão esperado momento.



O Pesadelo... e fim
(18 de Julho de 2005 - Era uma vez... O Mundo!)

Descartou a ponte. Contornou a imensa poça. Colheu flores. Perdeu o estômago. Caiu do penhasco. De pé. Criou asas nos calcanhares. Ele está atrás dela. O cheiro é ruim. Jogou fora os óculos. Andou até as ruas do centro. Escuras. Tinha uma espada. Tentou aprender a usar as asas dos pés. Caiu. Perdeu mais uma vez o estômago. Deixou sua marca em uma das calçadas. Pequena. As ruas eram sujas. Estava com medo. Tinha uma bolsa cheia de morangos poderosos. Ele está atrás dela. Sua respiração é forte. Estava com sede. Chovia bastante. O céu não estava azul. Era verde escuro. Tinha uma boneca de palha falante. Sem um olho. Ele estava atrás dela, seu cheiro era ruim e deslizava pelo chão. O coraçãozinho dela estava disparado, a boneca de palha falava e as asas dos pés não funcionavam. Ele estava atrás dela com sua enorme boca. Ela corria e quis se esconder da chuva e dele e da boneca falante. O guarda-chuva era canibal. Roxo. Ouviu as risadas vindas do fundo da poça. Deixou que sua espada caísse. Ele estava atras dela. Não parou para pegar a espada. Queria seus óculos de volta, precisava ver o caminho que não era o da ponte e fugir da boneca que virou uma fera de três cabeças e um pescoço. Conseguiu bater as asas dos pés e voou para a ponte em chamas. Tinha um balanço. Era um portal. Dentro um picadeiro de circo. Viu elefantes voadores. A boneca. Gritou as palavras mágicas e atirou os morangos poderosos na boneca que agora era uma fera de três cabeças e um pescoço. Explodiu a fera em milhões de confetes. Ele ainda estava atras dela. Parou de correr, voar, respirar. Era sonho. Usou os morangos. Tudo ficou rosa com pintas verde-limão. Era hora de ir para a escola. Ouviu uma voz chamando por seu nome, sabia que era hora de ir para a escola. Seu mundo já estava colorido. Ele estava atras dela. Talvez quisesse brincar. Era hora de ir para escola. Ele queria brincar. Estava cada vez mais colorido. Estava tão bonito seu mundo colorido. Gostava dele. Não foi a escola. Talvez não o encontrasse mais. Não quer nunca mais ir a escola. Gosta de seu mundo colorido.


Inveja


Subitamente o susto assumira uma forma cínica. Um choro forçado fizera formar uma fila de adoradores. Beijaram-na levemente na face tentando dissipar-lhe os supostos temores.
O susto passara bem perto do cômico e fora utilizado como subterfúgio. Ela mentira descaradamente, lavando a cara com lágrimas geladas... ludibriando uns amantes afoitos, ávidos.
Eu vi tudo de longe. Torci pelo carro.

(02 de Fevereiro de 2006 - Era uma vez... O mundo!)

Mentira


Ela.
Não sei como suportava...
Sofria, como sofre um sem-voz.
Eles.
Pobre dela, não a viam.
Ela sorria e até cantava...
como canta uma sem-voz.
Dizia o que não queria,
o que eles queriam.
Não sei como suportava,
ela, uma sem-voz...
mais uma, vivendo esta ilusão...
não sei como suportava.

(03 de Janeiro de 2006 - Era uma vez... O mundo!)

Vertigem

Pulsação. Latente... insana.
A voz cantando sonhos,
o lábio perdendo a cor,
o corpo perdendo os sentidos.
Calo-me diante de tamanha vertigem
e entrego meu silêncio como prova de cumplicidade.
Atendo a festa que se fez no seu olhar
retribuindo com risos o seu desejo.
Os movimentos acentuam a perfeição do fato
e o brilho reflete a loucura viciosa
brincando em todo o território que agora lhe pertence.
Pulsação. Ardente... Marcada.
A coerência insiste em fazer-se presente
e enfrenta o torpor com doses de lucidez.
O frio da certeza abraça a circunstância
mas não fere a vontade,
enquanto um rumor indigesto sufoca a felicidade.
A falta corrói o hoje.
As lagrimas vislumbram as cores do real...
Sinto o azul dar lugar ao que parecia impossível.
Assisto ao espetáculo dos batimentos
perfeitamente descompassados....
Os pensamentos somem.
O absurdo conquista seu espaço,
o prazer substitui as vozes da razão
e o arrepio subjuga qualquer reação do medo.
Sinto somente o sussurro das vozes
e me entrego ao abuso das vontades.
Na minha boca, confetes.
Nos meus sonhos, cores.
Nas minhas mãos, êxtase.
Nem mesmo os ruídos me acordam do torpor...
Criam sons com tons alternados, cadenciando a minha viagem.
Teu nome me encanta, vence minhas forças
e uma ousadia voraz toma minhas rédeas.
Seqüestra meu ar.
Percebo seus traços e gravo teus gestos,
Imediatamente meus pés se fincam no chão.
Os sonhos se dissipam.


(26 de Setembro de 2005 - Era uma vez... o mundo!)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu.

Segunda-Feira me parece um bom dia pra nascer. É quando tudo começa: a dieta, o emprego novo, o ano letivo, os novos projetos, a semana...

Eu comecei uma vida autônoma leia-se sem estar conectada a outro corpo numa segunda-feira. Fui concebida já substituta, e como boa substituta comecei na segunda. Vim pra suprir uma falta, mas como essa história é anterior a mim, não posso falar com propriedade - Sei somente que o faltoso era menino. Cheguei ainda de madrugada (antes cedo que atrasada), mas cheguei menina - e acho que foi um ato de rebeldia silenciosa, pois até posso substituir, mas jamais pretenderia ser o outro.

Penso que escolhi a segunda porque gosto das segundas! Veja se você compreende a lógica: Adoro a sexta, mas a liberdade que ela traz consigo só faz sentido se tivermos uma semana repleta de atividades produtivas. A segunda começa para que possamos fazer por merecer o descanso (ou não), o divertimento, o descompromisso com o tempo do final de semana - desfrutados já no finzinho da sexta. A segunda seria assim pura potência de uma semana que tem todas as possibilidades de render frutos maravilhosos.... a segunda é a expectativa do que está por vir e a esperança de que o que se cumpra seja bom. A segunda é promessa! São planos e realizações. É o desejo do sim.

Na minha segunda-feira, a lua era minguante, aquela que é bem fininha. E tudo em mim foi - e acho que ainda  é - como tudo nesta qualidade de lua. A maré é baixa, os amores menos alardeados, os céus menos vislumbrados... e eu, gorduchinha somente no nascimento (como boa substituta não poderia jamais vir quebrada ou com o defeito da desnutrição!), fui magra desde o momento em que se pode aceitar uma criança ser magra. E assim fui. Magrinha como a lua, com humores contidos como as marés na lua minguante. Bonita sim, mas ninguém fica admirando a lua minguante - ou fica?

Escorpiana. Estou completando 29 anos. Dizem os astrólogos que esse pode ser um momento decisivo. Sou regida astrologicamente por Plutão. Provavelmente deva seguir no mesmo caminho deste que não é mais planeta (!) e parece que esteve nesse status por tempo determinado. Nem mudou a roupagem, mas pegou cientistas de surpresa. Faltaram olhos para vê-lo, eu acho. Ele sempre esteve lá e sempre foi o que foi - e não era planeta!, e de repente, viram Plutão. Vejam! Contemplem! Seja a Lua Minguante ou a Segunda-Feira - e mesmo Plutão, que pode ser visto a lhos nus por nós! O problema, me parece, ser mais do olhar que do ser.