Não foi diferente comigo. Nem mesmo deuses insanos me dariam tal ilusão.
Pedi bençãos, mas Anjos Amadores, perdidos, desviaram-me da direção. É como os vejo... Anjos. Pode não parecer, entretanto, tudo o que eles querem é o melhor. Viemos do mesmo lugar.
Lá em cima é como se eu estivesse no Olimpo, cercado por ninfas, loucas e viciadas, famintas de sonhos. Achei que eu pudesse manter a lucidez, mas um simples Titã não tem poderes perante Zeus. As artimanhas não funcionam por muito tempo.
O prazer é fácil e aprisiona o pensamento... mulheres, meninos, amantes... os sintomas são sutis, incertos e cruéis. O vício enlouquece, forja fanáticos, sonhadores, amigos, irmãos... frios, contentes, preocupados com a próxima dose.
Tentaram me levar para um Deus... mas eu era o deus (!). Disseram existir um mais poderoso que eu... crendice. Não percebi os sintomas e me vendi ao paraíso terreno, acreditei nos Anjos Amadores pois mais pareciam artistas noturnos, caóticos, comédia e não me arrependo. Adorava ser um deles, gentis, unidos, sozinhos, voando com nossas asas negras pela madrugada.
Somos parecidos e tudo depende do nosso estado de espírito. Somos como Cavaleiros do Apocalipse, assassinos; como anjos mensageiros que avisam sobre o fim. Carregamos a morte e a ressurreição, é só pagar o preço, alto, disfarçado de alguns reais. Portamos a festa, a alegria, fogos... todos sabem quando o paraíso se materializa, o brilho chega a machucar os olhos e as mães são as que mais sofrem, derramam lágrimas, mas não o suficiente para salvarem os seus meninos da cegueira. Homens, crianças, meninas, putas e não foi diferente comigo... quase nunca o é... a verdade dança esvoaçante açoitando nossos sonhos.
Minha arma transformava-me no que eu quisesse. Desrespeitei as leis de lá... pecado mortal. No asfalto me vestia de povo mas subia o morro como rei, esse sempre foi o meu papel... e tentei suprimir o plebeu em mim.
Os tais Anjos Amadores... os segui, e lá do alto do morro me vi nas vestes de um Deus, desse que dizem ser pai-filho-e-espírito-santo, e como tal fui tratado... venerado... seguido... traído. Tentei resistir às tentações... as ninfas eram lindas, não consegui. Não percebi os sintomas.
Tornei-me um mito também no asfalto. Todos conheciam o meu nome, os do asfalto temiam, os do morro veneravam e ambos não proferiam-no em vão... era um dos meus mandamentos. Construí minha vitória catequizando um exército de meninos. Eu sou o mito, sempre rodeado de ninfas, que dançam esvoaçantes,nuas, loucas e viciadas, e para estas eu dava tudo o que lhes proporcionasse prazer.
Eu queria aquela, parece que forjada a mando de Zeus, tal qual Pandora... não percebi os sintomas. Anjos não podem se entregar, mesmo os amadores. Ele a trouxe para mim, meu amigo, fiel, meu Judas; e ele desenvolveu bem o seu personagem, queria a minha cena. Ele foi os olhos dos do asfalto... e seguiram meu presente que vinha ao lado deste que deveria ter sido sempre o meu braço direito.
Entraram no meu barraco, estava totalmente desprotegido, entregue a ela. Era dia de festa no morro, minha festa. Ele teve coragem de olhar nos meus olhos e pude ver o gosto de triunfo nos seus. O sangue tem um sabor amargo...ele mesmo puxou o gatilho, eu sorria. Ele sujou as mãos, mostrou ser maior que eu... não percebi os sintomas. Teria feito o mesmo mas cobraria mais.
Os moleques me vêem como um exemplo a ser seguido e meu nome nunca é dito em vão... mas as mães sempre sofrem, e a minha lavara as mãos há tempos, esperava por notícias minhas... e o novo anjo as entregou. Com suas asas negras pousou a morte sobre ela... já esperava por isso, mas como todas as santas, chorou por seu menino... nunca deixei de sê-lo.
Não passei por uma via crucis, minha vida sempre foi dionisíaca e meu fim não poderia ser diferente. Intensidade é o que se tem, vida longa não é para os anjos, somos amadores e morremos assim.
Deixei de ser Deus, virei notícia. Falam em guerra... mencionam números, estatísticas. Esquecem-se do mito, do homem, de mim. Homens, crianças, meninas, putas e não foi diferente comigo... quase nunca o é... a verdade dança esvoaçante açoitando os nossos sonhos. Não somos iguais e ainda assim nos colocam na mesma tabela.
Esta é a minha Odisséia e é assim que vou ser lembrado no Olimpo, Anjo, com minhas longas e reluzentes asas negras. Anjo negro da madrugada.
Somos como Cavaleiros do Apocalipse, assassinos; como anjos mensageiros que avisam sobre o fim. Carregamos a morte e a ressurreição, é só pagar o preço, alto, disfarçado de alguns reais.
(Texto velho... Março de 2004)
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