terça-feira, 4 de maio de 2010

Deuses Profanos


Não foi diferente comigo. Nem mesmo deuses insanos me dariam tal ilusão.

Pedi bençãos, mas Anjos Amadores, perdidos, desviaram-me da direção. É como os vejo... Anjos. Pode não parecer, entretanto, tudo o que eles querem é o melhor. Viemos do mesmo lugar.

Lá em cima é como se eu estivesse no Olimpo, cercado por ninfas, loucas e viciadas, famintas de sonhos. Achei que eu pudesse manter a lucidez, mas um simples Titã não tem poderes perante Zeus. As artimanhas não funcionam por muito tempo.

O prazer é fácil e aprisiona o pensamento... mulheres, meninos, amantes... os sintomas são sutis, incertos e cruéis. O vício enlouquece, forja fanáticos, sonhadores, amigos, irmãos... frios, contentes, preocupados com a próxima dose.

Tentaram me levar para um Deus... mas eu era o deus (!). Disseram existir um mais poderoso que eu... crendice. Não percebi os sintomas e me vendi ao paraíso terreno, acreditei nos Anjos Amadores pois mais pareciam artistas noturnos, caóticos, comédia e não me arrependo. Adorava ser um deles, gentis, unidos, sozinhos, voando com nossas asas negras pela madrugada.

Somos parecidos e tudo depende do nosso estado de espírito. Somos como Cavaleiros do Apocalipse, assassinos; como anjos mensageiros que avisam sobre o fim. Carregamos a morte e a ressurreição, é só pagar o preço, alto, disfarçado de alguns reais. Portamos a festa, a alegria, fogos... todos sabem quando o paraíso se materializa, o brilho chega a machucar os olhos e as mães são as que mais sofrem, derramam lágrimas, mas não o suficiente para salvarem os seus meninos da cegueira. Homens, crianças, meninas, putas e não foi diferente comigo... quase nunca o é... a verdade dança esvoaçante açoitando nossos sonhos.

Minha arma transformava-me no que eu quisesse. Desrespeitei as leis de lá... pecado mortal. No asfalto me vestia de povo mas subia o morro como rei, esse sempre foi o meu papel... e tentei suprimir o plebeu em mim.

Os tais Anjos Amadores... os segui, e lá do alto do morro me vi nas vestes de um Deus, desse que dizem ser pai-filho-e-espírito-santo, e como tal fui tratado... venerado... seguido... traído. Tentei resistir às tentações... as ninfas eram lindas, não consegui. Não percebi os sintomas.

Tornei-me um mito também no asfalto. Todos conheciam o meu nome, os do asfalto temiam, os do morro veneravam e ambos não proferiam-no em vão... era um dos meus mandamentos. Construí minha vitória catequizando um exército de meninos. Eu sou o mito, sempre rodeado de ninfas, que dançam esvoaçantes,nuas, loucas e viciadas, e para estas eu dava tudo o que lhes proporcionasse prazer.

Eu queria aquela, parece que forjada a mando de Zeus, tal qual Pandora... não percebi os sintomas. Anjos não podem se entregar, mesmo os amadores. Ele a trouxe para mim, meu amigo, fiel, meu Judas; e ele desenvolveu bem o seu personagem, queria a minha cena. Ele foi os olhos dos do asfalto... e seguiram meu presente que vinha ao lado deste que deveria ter sido sempre o meu braço direito.

Entraram no meu barraco, estava totalmente desprotegido, entregue a ela. Era dia de festa no morro, minha festa. Ele teve coragem de olhar nos meus olhos e pude ver o gosto de triunfo nos seus. O sangue tem um sabor amargo...ele mesmo puxou o gatilho, eu sorria. Ele sujou as mãos, mostrou ser maior que eu... não percebi os sintomas. Teria feito o mesmo mas cobraria mais.

Os moleques me vêem como um exemplo a ser seguido e meu nome nunca é dito em vão... mas as mães sempre sofrem, e a minha lavara as mãos há tempos, esperava por notícias minhas... e o novo anjo as entregou. Com suas asas negras pousou a morte sobre ela... já esperava por isso, mas como todas as santas, chorou por seu menino... nunca deixei de sê-lo.

Não passei por uma via crucis, minha vida sempre foi dionisíaca e meu fim não poderia ser diferente. Intensidade é o que se tem, vida longa não é para os anjos, somos amadores e morremos assim.

Deixei de ser Deus, virei notícia. Falam em guerra... mencionam números, estatísticas. Esquecem-se do mito, do homem, de mim. Homens, crianças, meninas, putas e não foi diferente comigo... quase nunca o é... a verdade dança esvoaçante açoitando os nossos sonhos. Não somos iguais e ainda assim nos colocam na mesma tabela.

Esta é a minha Odisséia e é assim que vou ser lembrado no Olimpo, Anjo, com minhas longas e reluzentes asas negras. Anjo negro da madrugada.

Somos como Cavaleiros do Apocalipse, assassinos; como anjos mensageiros que avisam sobre o fim. Carregamos a morte e a ressurreição, é só pagar o preço, alto, disfarçado de alguns reais.




(Texto velho... Março de 2004)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

?

O que me incomoda, acaba virando um post. Desta vez, um grupo inteiro me incomodou. Pra ser breve, um rapaz 20 anos estava falando sobre a Legião Estrangeira google explica, e muitas outras pessoas estavam ouvindo. Ele falava com paixão sobre como seria maravilhoso e heróico receber dinheiro para matar pessoas em nome do governo francês. No começo achei que a empolgação fosse brincadeira,  depois, passei a ter medo, e agora... agora só consigo achar que a humanidade é inviável uma professora dizia isso e eu, até então não entendia muito bem...  

Mas o pior foi o que se seguiu. Todos os que ouviam atentamente ao discuro quase doentio do rapaz, criticaram-no dizendo que não precisaria servir ao exército francês para matar pessoas que mereciam morrer. Que no Brasil havia muita gente na fila. Faça um bom trabalho pra nós, diziam. Mate bandidos, pois os temos aos montes bem aqui. Não bastasse chegar a este ponto, não sei como, a conversa descambou para comunidades carentes e como "asfaltar favelas só faz aumentar a população que vive lá... tem é que tirar essa gente na marra!". Tentei argumentar com todo arsenal possível das Ciências Humanas que têm uma razão para assim ser denominada, mas... A partir desse momento, eu deixei o lugar. Parei de interagir. E me recuso a tentar de novo. 

Fico realmente assustada, principalmente porque eu estava cercada de jovens com no máximo 25 anos. As pessoas se preocupam com o outro até o limite da porta de suas casas. Afinal, são os outros: "aquela gente", "essas pessoas". Mas, mais que assustada, fico desanimada.

terça-feira, 23 de março de 2010

Lentamente... 2010

2010 chegou, ficou... e quase passou, e eu ainda não escrevi uma linha. Sem dúvida preciso de mais tempo durante os dias.

Confesso que se eu fosse menos preguiçosa eu conseguiria fazer mais do que que faço... mas este é, sem dúvida meu pecado favorito! Mas já fiz muitas coisas neste novo quase velho ano! Minha dissertação, pode-se dizer, acabei! Dei fim... matei quem há muito vinha me torturando. Agora, seja o que a banca quiser!

Por hora parece que estou livre pra fazer tantas outras coisas que engatinham neste ano: casar, por exemplo. Dá um trabalho... lista, vestido, festa ou não-festa, igreja, certidões e documentos reconhecidos ... dá uma preguiça, mas não mais que a dissertação.

Acho que vou conseguir escrever mais regularmente...